Ensaio Sobre a Cegueira - José Saramago

“...como se acabasse de descobrir algo que estivesse obrigado a saber desde muito antes, murmurou triste, É dessa massa que nós somos feitos, metade de indiferença e metade de ruindade.”

“...o que queria era fingir outra preocupação, o que queria era não ter que abrir os olhos.”

“Com a mão trêmula, a rapariga punha algumas gotas de seu colírio. Assim sempre poderia dizer que não eram lágrimas o que lhe estava escorrendo dos olhos.”

“...se antes de cada ato nosso nos puséssemos a prever todas as conseqüências dele, a pensar nelas a sério, primeiro as imediatas, depois as prováveis, depois as possíveis, depois as imagináveis, não chegaríamos sequer a mover-nos de onde o primeiro pensamento nos tivesse feito parar. Os bons e os maus resultados dos nosso ditos e obras vão-se distribuindo, supõe-se que de uma forma bastante uniforme e equilibrada, por todos os dias do futuro, incluindo aqueles, infindáveis, em que já cá não estaremos para poder comprova-lo, para congratular-nos ou pedir perdão, aliás, há quem diga que isso é que é a imortalidade de que tanto se fala.”

“Psicologicamente, mesmo estando um homem cego, temos de reconhecer que há uma grande diferença entre cavar sepulturas à luz do dia e depois de o sol desaparecer.”

“Só num mundo de cegos as coisas serão como verdadeiramente o são.”

“Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos.”

“As palavras são assim, disfarçam muito, vão-se juntando umas com as outras, parece que não sabem aonde querem ir...”

“...e estava imóvel, tenso, como se quisesse reter os pensamentos, ou pelo contrário, impedi-los de continuarem a pensar.”

“...a pensar que ainda existia vida no mundo, a perguntar se ainda haveria uma parte dela para si.”

“...o difícil não é ter que viver com as pessoas, o difícil é compreende-las.”

“Aqueles seis degraus lá fora vão ser como um precipício, mas enfim, a queda não será grande, o costume de cair endurece o corpo, ter chegado ao chão, por si só, já é um alívio. Daqui não passarei, é o primeiro pensamento, e às vezes, o último, nos casos fatais.”