Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres - Clarice Lispector

“...embora de olho secos, o coração estava molhado.”

“Pareceu-lhe então, meditativa, que não havia homem ou mulher que por acaso não tivesse olhado ao espelho e não se surpreendesse consigo próprio. (...) Ah, então é verdade que eu não imaginei: eu existo.”

“...uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para a frente. Foi o apesar de que me deu uma angústia que insatisfeita foi a criadora da minha própria vida.”

“Era cruel o que fazia consigo própria: aproveitar que estava em carne viva para se conhecer melhor, já que a ferida estava aberta.”

“Então o que chamava de morte a atraía tanto que só podia chamar de valoroso o modo como, por solidariedade e pena dos outros, ainda estava presa ao que chamava de vida.”

“Não entender era tão vasto que ultrapassava qualquer entender – entender era sempre limitado. Mas não-entender não tinha fronteiras e levava ao infinito (...) O bom era ter uma inteligência e não entender. Era uma bênção estranha como a de ter loucura sem ser doida. (...) Mas de vez em quando vinha a inquietação insuportável: queria entender o bastante para pelo menos ter mais consciência daquilo que ela não entendia.”

“Mas existe um grande, o maior obstáculo pra eu ir adiante: eu mesma. Tenho sido a maior dificuldade no meu caminho. É com enorme esforço que consigo me sobrepor a mim mesma.”

“Que faço dessa paz estranha e aguda, que já está começando a me doer como uma angústia, como um grande silêncio de espaços?”

“Estava caindo numa tristeza sem dor. Não era mau. Fazia parte, com certeza. No dia seguinte provavelmente teria alguma alegria, também sem grandes êxtases, só um pouco de alegria, e isso também não era mau.”

“Muitas coisas você só tem se for autodidata, se tiver a coragem de ser. (...) Espero que você tenha a coragem de ser autodidata apesar dos perigos...”

“Amor será dar de presente um ao outro a própria solidão?”