Cartas Perto do Coração - Clarice Lispector, Fernando Sabino

“Passo os dias procurando enganar minha angústia e procurando não fazer horror a mim mesma.”

“Mas não sei aprender ainda a desistir e tenho mesmo medo de desistir e me entregar porque não sei o que virá daí. Até agora eu mesma me ergui sempre mas é um esforço muito grande e naturalmente estou bem cansada. Esta vida íntima que chega a um ponto de não ter nenhum sinal exterior, termina por me tirar a direção e o sentido das coisas. Mas parece que cheguei a um ponto de onde não posso mais sair.”

“A solidão de que sempre precisei é ao mesmo tempo inteiramente insuportável.”

“A verdade é que estamos sozinhos, cada um consigo mesmo.”

“Talvez porque agora você já não esteja sofrendo muito, mas sofrendo bem: é uma diferença bem importante. (...) A gente sofre muito: o que é preciso é sofrer bem, com discernimento, com classe, com serenidade de quem já é iniciado no sofrimento. Não para tirar dele uma compensação, mas um reflexo.”

“– Tive um verdadeiro cansaço em Paris de gente inteligente. Não se pode ir a um teatro sem precisar dizer se gostou ou não, e porque sim e porque não. Aprendi a dizer ‘não sei’, que é um orgulho, uma defesa e um mau hábito porque termina-se mesmo não querendo pensar, além de não querendo dizer.”

“...sempre penso, com muita estranheza aliás, que talvez a vida seja a morte e quando a gente morre, acorda e vive, com medo de morrer, quer dizer, de tornar a viver.”

“Há um edifício aqui que, anunciam, vai cair, e o mundo, embora ninguém anuncie, também vai cair.”

“...chove muito, chove inesperadamente e, melhor, muitas vezes começa a chover no meio da noite. É do que vou sentir saudades daqui.”

“E o tempo se conta mesmo em anos. Deus me livre se fosse em dias. É como crescer ou envelhecer que só se vê em anos. Como é que se pode ver a curva tão larga das coisas se se está tão próximo como é próximo o dia? Pois se às vezes a palavra que falta para completar um pensamento pode levar meia vida para aparecer.”

“O sentimento de grandeza que você acha que está perdendo talvez agora é que você o esteja adquirindo: sua predisposição para ficar calada não é propriamente uma novidade: a novidade é estar aceitando, inclusive o silêncio. É bom isso, dá mais paciência, dá compreensão, dá mais sentido às coisas – e dá grandeza.”

“Está me acontecendo uma coisa tão esquisita: com o tempo passando, me parece que não moro em lugar nenhum, e que nenhum lugar ‘me quer’...”


“Depois te escrevo mais, uma carta realmente, contando coisas, ou não dizendo nada, pelo simples consolo, ainda que à distância, de te saber existente e convivermos.”