A Descoberta do Mundo - Clarice Lispector

“Não há homem ou mulher que por acaso não se tenha olhado ao espelho e se surpreendido consigo próprio.”

“...faze com que ele sinta que a morte não existe porque já estamos na eternidade... (…) faze com que ele receba o mundo sem medo, pois para esse mundo incompreensível nós fomos criados e nós mesmos também incompreensíveis, então é que há uma conexão entre esse mistério do mundo e o nosso, mas essa conexão não é clara para nós enquanto quisermos entendê-la...”

“Amanheci em cólera. Não, não, o mundo não me agrada. A maioria das pessoas estão mortas e não sabem, ou estão vivas com charlatanismo. E o amor, em vez de dar, exige. E quem gosta de nós quer que sejamos alguma coisa de que eles precisam.”

“Quero ser anônima e íntima. Quero falar sem falar, se é possível. (…) É que sinto falta de um silêncio. Eu era silenciosa. E agora me comunico, mesmo sem falar. Mas falta uma coisa. Eu vou tê-la. É uma espécie de liberdade, sem pedir licença a ninguém.”

“Essa tendência atual de elogiar as pessoas dizendo que são 'muito humanas' está me cansando. Em geral esse 'humano' está querendo dizer 'bonzinho', 'afável', senão meloso.”

“...estou cansada de tanta gente me achar simpática. Quero os que me acham antipática porque com esses eu tenho afinidade: tenho profunda antipatia por mim.”

“A verdade do mundo é impalpável.”

“Com o tempo, sobretudo nos últimos anos, perdi o jeito de ser gente. Não sei mais como se é. E uma espécie toda nova da 'solidão de não pertencer' começou a me invadir como heras num muro.”

“Como o ser humano um dia fez uma pergunta sobre si mesmo, tornou-se o mais ininteligível dos seres vivos.”

“Palavras de uma amiga. 'Fortifica o que de melhor tiveres em ti. Não prestes atenção à opinião alheia. Faze de ti mesma e de teu próprio Eu o teu mestre. Quando ele estiver bastante fortalecido, despertará e coisas jamais sonhadas te serão reveladas.”

“Tudo o que dá certo é normal. O estranho é a luta que se é obrigado a travar para obter o que simplesmente seria o normal.”

“É preciso também não perdoar. (…) A hora da sobrevivência é aquela em que a crueldade de quem é a vítima é permitida, a crueldade e a revolta. E não compreender os outros é que é certo.”

“É determinismo, sim. Mas seguindo o próprio determinismo é que se é livre. Prisão seria seguir um destino que não fosse o próprio. Há uma grande liberdade em se ter um destino. Este é o nosso livre arbítrio.”

"Morrer deve ser assim: por algum motivo estar-se tão cansado que só o sono da morte compensa. Morrer às vezes parece um egoísmo. Mas quem morre às vezes precisa muito. Será que morrer é o último prazer terreno?”

“Um nome para o que eu sou, importa muito pouco. Importa o que eu gostaria de ser.”

“Experimente: se você fosse você, como seria e o que faria? Logo de início se sente um constrangimento: a mentira em que nos acomodamos acabou de ser levemente locomovida do lugar onde se acomodara.”

“Eu às vezes tenho a sensação de que estou procurando às cegas alguma coisa; eu quero continuar, eu me sinto obrigada a continuar. Sinto até uma certa coragem de fazê-lo. O meu temor é de que seja tudo muito novo para mim, que eu talvez possa encontrar o que não quero. Essa coragem eu teria, mas o preço é muito alto, o preço é muito caro, e eu estou cansada. Sempre paguei e de repente não quero mais. Sinto que tenho que ir para um lado ou para outro. Ou para uma desistência: levar uma vida mais humilde de espírito, ou então não sei em que ramo a desistência, não sei em que lugar encontrar a tarefa, a doçura, a coisa.”

“Thoreau , por exemplo, desolava-se vendo seus vizinhos só pouparem e economizarem para um futuro longínquo. Que se pensasse um pouco no futuro, estava certo. Mas ‘melhore o momento presente’, exclamava. E acrescentava: ‘Estamos vivos agora’. E comentava com desgosto: ‘Eles estão juntando tesouros que as traças e a ferrugem irão roer e os ladrões roubar’. A mensagem é clara: não sacrifique o dia de hoje pelo dia de amanhã. Se você se sente infeliz agora, tome uma providência agora, pois só nas sequências dos agoras é que você existe.”

“Mas sou uma tímida ousada e é assim que tenho vivido, o que, se me traz dissabores, tem-me trazido também alguma recompensa. Quem sofre de timidez usada entenderá o que quero dizer.”

“–  Tem pessoas – acrescentou – que nunca ficam deprimidas, e não sabem o que perdem.
Explicou-me, logo a mim, que a depressão ensina muito.”

“Gafe é a hora em que certa realidade se revela.”

“Quem sabe, se fingissem menos naturalidade, ficassem mais naturais.”

“A pior cegueira é a dos que não sabem que estão cegos.”

“Com uma amiga chegamos a um tal ponto de simplicidade e liberdade que às vezes eu telefono e ela responde: não estou com vontade de falar. Então digo até logo e vou fazer outra coisa.”

“...estava permanentemente ocupada em querer e não quer ser o que eu era, não me decidia por qual de mim, toda eu é que não podia; ter nascido era cheio de erros a corrigir.”

“Mas liberdade é só o que se conquista. Quando me dão, estão me mandando ser livre.”

“De agora em diante eu gostaria de me defender assim: é porque eu quero. E que isso bastasse.”

“Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões, é que se ama verdadeiramente."

“Perguntei-lhe se já experimentara sentir-se em solidão ou se sua vida tinha sempre esse brilho justificável. Eu aconselhei que de vez em quando ficasse sozinho, senão seria submergido, pois até o amor excessivo dos outros podia submergir uma pessoa. Ele concordou, e disse que sempre que podia dava suas retiradas.”

“Há os que já têm o LSD em si, sem precisar tomá-lo.”

“Ele disse: não chore, que chorar enfraquece. Eu disse: mas às vezes é como a chuva de que se precisa quando tem estiagem demais e tudo fica muito seco.”

“Antes o sofrimento legítimo que o prazer forçado.”

“Ter nascido me estragou a saúde.”

“Eu sei de muito pouco. Mas tenho ao meu favor tudo o que não sei e – por ser um campo virgem – está livre de preconceitos.”

“Precisará compreender que é frequentemente tão importante quebrar um bom hábito como quebrar um mau. Todos os hábito são suspeitos.”

“Às vezes me enjoo de gente. Depois passa e fico de novo toda curiosa e atenta.”

“E, por me estranhar, vi-me por um instante como sou. Gostei ou não? Simplesmente aceitei.”

“Era profundamente derrotado pelo mundo em que vivia. E separara-se das pessoas pela sua derrota e por sentir que os outros também eram derrotados. Ele não queria fazer parte de um mundo onde, por exemplo, o rico devorava o pobre. Como parecia-lhe um movimento apenas romântico, o seu, se se agregasse aos que lutavam contra o esmagamento da vida como esta era, então fechou-se numa individualização que, se não tomasse cuidado, podia se transformar em solidão histérica ou meramente contemplativa. Enquanto não viesse algo melhor, procurava relacionar-se com os outros derrotados por intermédio de uma espécie de amor torto, que atingia tanto os outros como, de algum modo, a si próprio.”

“Creio mesmo que um dia vou estourar de lucidez, isto é, ficar louco.” (Millôr Fernandes)

“Precisa-se dar outro nome a certo tipo de esperança porque esta palavra significa sobretudo espera. E a esperança é já. Deve haver uma palavra que signifique o que quero dizer.”