Fugindo do Ninho - Richard Bach

“Há muito tempo minha verdade vem sendo refinada.”

“Para mim, religiões sistematizadas eram pontes oscilantes, pedaços de pau mal ajambrados que cederiam à primeira pressão, uma questão infantil revolvendo o mistério impossível: porque as religiões pendem para questões irrespondíveis? Não se sabe que o irrespondível não é resposta? Seguidamente, deparava-me com uma nova teologia e sempre me via diante do impasse: devo agarrar essa crença e fazer dela minha vida? Cada vez que esse impasse se impunha, colocava meu peso sobre a ponte, as tábuas tremiam e rangiam; então, todas de uma só vez, caíam diante de mim, como que espanadas, rolando abaixo, escapando de vista. Nesse ponto, agarrava-me ao mundo, agachando-me de volta à beirada abaixo da qual estava o abismo, grato por não sucumbir à queda. Que sabor teria entregar o coração a uma religião que garantia que o planeta se dissolveria em fogo quando chegasse o 31 de dezembro, e então acordar no Ano-Novo entregue ao canto dos pássaros? Constrangimento, este o sabor que teria.”

“Se quebrar alguns recordes físicos me traz tanto prazer, (...) se busco sempre a superação física, o que haveria de errado em fazer o mesmo em relação ao espirito?”

“– Gosto dos presentes.
– Desista dos aniversários, você pode se dar seus próprios presentes a cada dia do ano.”

“Claro que sou demente, Dickie, mas no bom sentido.”

“Quando não se acredita em aniversário, a ideia de envelhecer torna-se um tanto estrangeira. Você não cai em traumas ao fazer dezesseis ou trinta, ou o assustador cinquenta ou o mortificante centenário. Você passa a medir sua vida pelo que aprendeu, não por ficar contando calendários.”

“Na minha opinião, somos criaturas sem idade. O sentimento engraçado de que somos mais jovens ou mais velhos do que nosso corpo é o contraste entre o senso comum... nossa consciência deveria sentir-se tão velha quanto o nosso corpo... e a verdade, que diz que a consciência não tem idade. Nossa mente simplesmente não pode juntar as duas coisas por qualquer regra que seja do tempo-espaço. Então, em vez de tentar outras regras, ela simplesmente deixa de tentar. Sempre que sentimos que não temos a idade correspondente aos nossos números, dizemos ‘estranha sensação!’ e mudamos de assunto.”

“Congelei de medo... tinha de fazer isso, não importa o que achasse correto para mim? Crescer é isto, ter de fazer o que as outras pessoas fazem? Não gosto do que está acontecendo aqui. Como posso sair dessa? Socorro! Como resposta, houve uma explosão no fundo da minha mente, portas arrancadas dos gonzos, uma força lívida arrebentando, agitando. Este idiota está querendo lhe dizer o que você deve ou não fazer? Que história é essa de ‘você tem que fazer’? Você não tem que fazer nada que não queira. Quem é este palhaço para mandar você fazer o que ele quer? Bati com o copo na mesa, a cerveja saltando da borda.
– Eu não tenho que beber nada, Mike! Ninguém me diz o que fazer!”

“Uma droga para tudo é maluquice. Legal ou não, prescrita ou não, passada por cima ou por baixo do balcão, comprada para uso nas esquinas das ruas – cada pílula nos separa do conhecimento de nossa própria compleição e nos distancia do aprendizado da verdade. É melhor nos tratarmos sem recorrer a nenhuma droga, seja qual for a droga e a situação. É criminoso, imaginei, para mim, apoiar uma multidão que trata o corpo como uma máquina em vez de notar as manifestações psicológicas, que fracassam em ver além da primeira tela das aparências.”

“– Voar ainda é uma fantasia para muitos de nós – expliquei. – Quantas fantasias incluem doença? Viva bastante aquilo que você sempre sonhou em fazer e não sobra espaço para as doenças.

“Tudo o que aprendi, Dickie, daquele momento em diante, comprovou o poder do indivíduo para mudar seu destino, o poder de escolha de cada um. (...) nunca espere alguém para mostrar-lhe o caminho ou fazê-lo feliz.”

“– É o preço a pagar – avisou o padre. – Invente a sua teologia e você será diferente de todos os outros.
– Isso não é preço, é uma recompensa.”

“– Imagine que existe um Deus Todo-Poderoso que observe os mortais e seus problemas na Terra.
Ele concordou.
– Então, Deus deve ser responsável por todas as catástrofes, tragédias, terror e morte que flagelam a humanidade.
Dickie ergueu a mão:
– Ele não é responsável só porque vê nossos problemas.
– Pense bem. Porque Ele é Todo-Poderoso. Quer dizer, Ele tem o poder de impedir as coisas ruins, se Ele quiser. Mas Ele escolhe não impedir. Ele é a causa do mal, por permitir que ele exista.
Ele avaliou o raciocínio.
– Talvez... – disse hexitante.
– Por definição, porque os inocentes continuam a sofrer e morrer, um Deus que tudo pode não só é indiferente como infinitamente cruel.
Dickie levantou a mão novamente, mais pedindo tempo para pensar do que para fazer uma pergunta.
– Talvez...
– Você não tem certeza – eu disse.
– Parece estranho, mas não consigo ver o que está errado.
– Eu também não. Essa ideia está mudando o mundo para você, do mesmo modo que mudou para mim... um Deus mau e cruel?
– Continue – ele pediu.
– Seguinte: imagine um Deus Todo-Poderoso que olhe os mortais e conheça seus problemas na Terra.
– Assim é melhor.
Concordei.
– Então esse Deus deve ver com tristeza os inocentes sendo oprimidos e mortos pela maldade, vezes sem fim; assassinados aos milhões enquanto imploram em vão aos céus por socorro, através dos séculos.
Ele ergueu o braço.
– Agora você vai dizer: os inocentes sofrem e morrem, então o nosso Deus de bondade não tem poder para nos ajudar.
– Exatamente! Diga quando estiver pronto para uma pergunta.
Durante um momento, ele pensou sobre o que eu tinha dito. Então cedeu:
– Ok, estou pronto.
– Qual é o Deus real, Dickie? O cruel ou o impotente?”

“Qualquer um pode matar a minha aparência. Ninguém pode tirar a minha vida.”

“O meu corpo não é mais o eu real do que um número no papel é o número real.

"– Você é mestre de sua vida? – perguntou ele.
– Claro que sou! Eu, você e todos os outros. Mas nos esquecemos disso.
– Como eles fazem isso?
– Como quem faz o quê?
– Como os mestres mudam sua vida quando querem?
Sorri a esta pergunta.
– Com armas poderosas.
– O quê?
– Outra diferença entre mestres e vítimas é que as vítimas não descobriram as armas poderosas e os mestres as usam o tempo todo.
– Furadeiras elétricas? Serras circulares? – Ele parecia um náufrago em busca de socorro. Um bom professor o teria deixado descobrir a resposta sozinho, mas eu falo demais para um professor.
– Nada disso. 'Escolha'. A lâmina encantada com um fio que modela as existências. Se ainda assim temos medo de escolher outra coisa que não o que já temos, o que adianta escolher?”

"Afastar-se da segurança não quer dizer correr riscos inúteis.”

“Lembre-se de que este mundo não é a realidade. É o playground das aparências, no qual praticamos a arte de superar o Parece Ser com o nosso conhecimento do É. O Princípio das Coincidências é uma ferramenta poderosa que promete, nesse playground, transportar-nos através do muro.”

“Os semelhantes se atraem. Isso vai surpreendê-lo enquanto viver. Escolha um amor e trabalhe para que ele seja verdadeiro, e de algum modo vai acontecer, algo imprevisto vai juntar os semelhantes, vai libertá-lo e colocá-lo no caminho de seu próximo muro.”

“Chamamos este mundo de Terra, mas o nome verdadeiro é Mudança.”

“– O mundo não é uma esfera, Dickie, é uma enorme pirâmide flutuante. Na sua base está a mais baixa forma de vida que se possa imaginar, odiosa, cheia de vícios e praticando o mal por puro prazer, destituída de compaixão, um pouco acima da consciência, tão selvagem que se autodestrói assim que nasce. Existe espaço para este tipo de consciência, muito espaço, bem aqui no nosso terceiro planeta triangular.
– O que está no topo da pirâmide?
– Uma consciência tão refinada que quase só reconhece a luz. Seres que vivem apenas para seus amores, para os mais altos princípios...”

“– Paz é melhor que guerra.
– Aqueles no topo da pirâmide concordariam. A paz os faria mais felizes.
– E os da base?
– ...amam a batalha! Há sempre uma razão para lutar. Com sorte, é uma causa quente: esta guerra nós fazemos por Deus, esta é para salvar nossa pátria, esta outra para limpar a Raça, para expandir o Império, para obter lata e tungstênio. Lutamos porque paga-se bem, porque é mais excitante matar do que construir vidas, porque guerra evita trabalhar para viver, porque todos estão lutando, porque vai provar que sou um homem, porque gosto de matar.
– Terrível.
– Não é terrível, é previsível. Quando um planeta abriga um espectro tão amplo de mentalidades, espera-se um monte de conflitos.”

“Se eu puder lhe dizer uma única coisa sobre a vida, eu diria: nunca esqueça que é um jogo.”

“Nossa sorte é não termos recordação de outras vidas, pensei. Imobilizados pela memória, não poderíamos prosseguir com esta.”

“A mais leve sugestão de mudança é uma ameaça de morte a alguns status quo.”

"Evite problemas e você nunca será um dos que superam."

Preconceito Linguístico - Marcos Bagno

“Uma receita de bolo não é um bolo, o molde de um vestido não é um vestido, um mapa-múndi não é o mundo... Também a gramática não é a língua.”

“O reconhecimento da existência de muitas normas linguísticas diferentes é fundamental para que o ensino em nossas escolas seja consequente com o fato comprovado de que a norma linguística ensinada em sala de aula é, em muitas situações, uma verdadeira ‘língua estrangeira’ para o aluno que chega à escola proveniente de ambientes sociais onde a norma linguística empregada no quotidiano é uma variedade de português não padrão.”

“Como o nosso ensino da língua sempre se baseou na norma gramatical de Portugal, as regras que aprendemos na escola em boa parte não correspondem à língua que realmente falamos e escrevemos no Brasil. Por isso achamos que ‘português é uma língua difícil’: porque temos de decorar conceitos e fixar regras que não significam nada para nós.”

“Se existisse língua ‘difícil’, ninguém no mundo falaria húngaro, chinês ou guarani, e no entanto essas línguas são faladas por milhões de pessoas, inclusive criancinhas analfabetas!”

“O professor pode mandar o aluno copiar quinhentas mil vezes a frase: ‘Assisti ao filme’. Quando esse mesmo aluno puser o pé fora da sala de aula, ele vai dizer ao colega: ‘Ainda não assisti o filme do Zorro!’ Porque a gramática brasileira não sente a necessidade daquela preposição a, que era exigida na norma clássica literária, cem anos atrás, e que ainda está em vigor no português falado em Portugal, a dez mil quilômetros daqui! É um esforço árduo e inútil, um verdadeiro trabalho de Sísifo, tentar impor uma regra que não encontra justificativa na gramática intuitiva do falante.”

“Por isso tantas pessoas terminam seus estudos, depois de onze anos de ensino fundamental e médio, sentindo-se incompetentes para redigir o que quer que seja. E não é à toa: se durante todos esses anos os professores tivessem chamado a atenção dos alunos para o que é realmente interessante e importante, se tivessem desenvolvido as habilidades de expressão dos alunos, em vez de entupir suas aulas com regras ilógicas e nomenclaturas incoerentes, as pessoas sentiriam muito mais confiança e prazer no momento de usar os recursos de seu idioma...”

“Se tantas pessoas inteligentes e cultas continuam achando que ‘não sabem português’ ou que ‘português é muito difícil’ é porque esta disciplina fascinante foi transformada numa ‘ciência esotérica’, numa ‘doutrina cabalística’ que somente alguns ‘iluminados’ (os gramáticos tradicionalistas!) conseguem dominar completamente.”

“No fundo, a ideia de que ‘português é muito difícil’ serve como mais um dos instrumentos de manutenção do status quo das classes sociais privilegiadas. Essa entidade mística e sobrenatural chamada ‘português’ só se revela aos poucos ‘iniciados’, aos que sabem as palavras mágicas exatas para fazê-la manifestar-se.”

“...não é a ‘língua’ que tem armadilhas, mas sim a gramática normativa tradicional, que as inventa precisamente para justificar sua existência e para nos convencer de que ela é indispensável.”

“Infelizmente, existe uma tendência (mais um preconceito!) muito forte no ensino da língua de querer obrigar o aluno a pronunciar ‘do jeito que se escreve’, como se essa fosse a única maneira ‘certa’ de falar português. (...) É claro que é preciso ensinar a escrever de acordo com a ortografia oficial, mas não se pode fazer isso tentando criar uma língua falada ‘artificial’ e reprovando como ‘erradas’ as pronúncias que são resultado natural das forças internas que governam o idioma.”

“Um ensino gramaticalista abafa justamente os talentos naturais, incute insegurança na linguagem, gera aversão ao estudo do idioma, medo à expressão livre e autêntica de si mesmo.”

“Um professor de português quer formar bons usuários da língua escrita e falada, e não prováveis candidatos ao Prêmio Nobel de literatura!”

“Mas os preconceitos, como bem sabemos, impregnam-se de tal maneira na mentalidade das pessoas que as atitudes preconceituosas se tornam parte integrante do nosso próprio modo de ser e de estar no mundo. É necessário um trabalho lento, contínuo e profundo de conscientização para que se comece a desmascarar os mecanismos perversos que compõem a mitologia do preconceito. E o tipo mais trágico de preconceito não é aquele que é exercido por uma pessoa em relação a outra, mas o preconceito que uma pessoa exerce contra si mesma. Infelizmente, ainda existem muitas mulheres que se consideram ‘inferiores’ aos homens; existem negros que acreditam que seu lugar é mesmo de subserviência em relação aos brancos; existem homossexuais convictos de que sofrem de uma ‘doença’ que pode, inclusive, ser curada...”

“O problema certamente está no modo como se ensina português e naquilo que é ensinado sob o rótulo de língua portuguesa.”

“A Gramática Tradicional permanece viva e forte porque, ao longo da história, ela deixou de ser apenas uma tentativa de explicação filosófica para os fenômenos da linguagem humana e foi transformada em mais um dos muitos elementos de dominação de uma parcela da sociedade sobre as demais. Assim como, no curso do tempo, tem se falado da Família, da Pátria, da Lei, da Fé etc. como entidades sacrossantas, como valores perenes e imutáveis, também a ‘Língua’ foi elevada a essa categoria abstrata, devendo, portanto, ser ‘preservada’ em sua ‘pureza’, ‘defendida’ dos ataques dos ‘barbarismos’, ‘conservada’ como um ‘patrimônio’ que não pode sofrer ‘ruína’ e ‘corrupção’.”

“...o novo assusta, o novo subverte as certezas, compromete as estruturas de poder e dominação há muito vigentes.”

“É a mesma ira que leva os fundamentalistas (pseudo)cristãos a querer impedir o ensino da teoria evolucionista de Darwin em escolas norte-americanas. Assim como esses fundamentalistas, para defender seu ponto de vista obscurantista, acusam Darwin de afirmar que ‘o homem descende do macaco’ (coisa que ele jamais escreveu em nenhuma de suas obras: sua teoria é a de que os humanos e os demais primatas descendem de um ancestral comum)...”

“O grande problema está na confusão que reina na mentalidade das pessoas que atribuem uma ‘crise’ à língua, quando, de fato, a crise existe é na escola, é no sistema educacional brasileiro, classificado entre os piores do mundo...”

Em que creem os que não creem - Umberto Eco; Carlo Maria Martini

“Quando qualquer autoridade religiosa de qualquer confissão se pronuncia sobre problemas concernentes a princípios da ética natural, os leigos devem reconhecer-lhe este direito: podem concordar, ou não concordar com sua posição, mas não têm nenhuma razão para contestar-lhe o direito de expressá-la, mesmo como crítica ao modo de viver do não-crente.  Os leigos têm razão para reagir apenas em um caso: quando uma confissão tende a impor aos não-crentes (ou aos crentes de outra fé) comportamentos que a lei do Estado ou de suas religiões proíbem, ou a proibir-lhes outros que a lei do Estado ou de suas religiões, ao contrário, permitem.”

“Jesus disse que era preciso pagar o tributo a César, pois o ordenamento jurídico do Mediterrâneo apontava nesse sentido, mas isso não significa que um cidadão europeu tenha, hoje, o dever de pagar taxas ao último descendente dos Habsburgo.”

“...e não se preocupe se alguns dizem que falamos difícil: eles poderiam ter sido encorajados a pensar fácil demais pela 'revelação' da mídia, previsível por definição. Que aprendam a pensar difícil, pois nem o mistério, nem a evidência, são fáceis.”

“...devemos, antes de tudo, respeitar o direito da corporalidade do outro, entre os quais o direito de falar e de pensar. Se nossos semelhantes tivessem respeitado esses 'direitos do corpo' não teríamos tido o massacre dos Inocentes, os cristãos no circo, a noite de São Bartolomeu, a fogueira para os hereges, os campos de extermínio, a censura, as crianças nas minas, os estupros na Bósnia.”

“A dimensão ética começa quando entra em cena o outro.”

“Ético é o homem que, de boa-fé, não ama; não-ético é o homem que ama porque, apesar de sua convicção de não amar, quer evitar a desaprovação social.”

"A história da Igreja, junto com os infinitos atos de fé e bondade, é tecida intimamente pela violência dos clérigos e das instituições por eles dirigidas. Sempre se poderia dizer que todas as instituições humanas e os homens que as administram – mesmo os ministros de Deus – são suscetíveis de falhas e seria verdade. Mas o que se pretende discutir aqui é outra e mais importante questão: não existe ligação com o Absoluto que tenha podido impedir a relativização da moral; queimar uma bruxa ou um herege não foi considerado pecado e menos ainda crime durante quase a metade da história milenar do catolicismo; ao contrário, essas crueldades que violavam a essência de uma religião que havia sido fundada no amor, eram realizadas em nome e sob a tutela desta mesma religião e da moral que deveria fazer parte dela intrinsecamente. Repito: não estou desenterrando erros e até crimes que hoje – mas só hoje – a Igreja já admitiu e repudiou; estou simplesmente afirmando que a moral cristã, eminentíssimo cardeal, ligada ao Absoluto que emana do Deus transcendente, efetivamente não impediu uma interpretação relativizante da própria moral. Jesus impediu que a adúltera fosse lapidada e sobre isso edificou uma moral baseada no amor, mas a Igreja fundada por ele, mesmo sem negar esta moral, interpretou-a de uma maneira que levou a verdadeiros massacres e uma cadeia de delitos contra o amor. E isto não apenas em casos esporádicos ou por algum erro trágico de pessoas isoladas, mas com base em uma concepção que guiou o comportamento da Igreja durante um pouco menos de um milênio. Concluo sobre este ponto: não existe ligação com o Absoluto, não importa o que se queira entender por esta palavra, que evite a mutação da moral segundo os tempos, os lugares e os contextos históricos nos quais uma vivência humana se desenvolve."

"Pessoalmente desconfio daquele Absoluto que dita mandamentos heteronômicos e produz instituições incumbidas de administrá-los, sacralizá-los e interpretá-los. (...) Por isso, deixemos de lado as metafísicas e as transcendências se quisermos reconstruir juntos uma moral perdida; reconheçamos juntos o valor moral do bem comum e da caridade no sentido mais alto do termo; pratiquemo-lo profundamente, não para merecer prêmios ou escapar de castigos, mas simplesmente para seguir o instinto que provém da raiz humana comum e do código genético comum que está inscrito no corpo de cada um de nós."

“Quem não se recorda do aforismo de Bernard Shaw: ‘Não faça aos outros aquilo que gostaria que fizessem a ti. Eles poderiam não ter o mesmo gosto’.”

19 de agosto de 2013

6 anos de fragmentos.

O Vale do Terror - Arthur Conan Doyle

“A mediocridade não reconhece nada que lhe seja superior, mas o talento reconhece a genialidade instantaneamente.

Olhai os Lírios do Campo - Erico Verissimo

"– Então é porque tenho vivido e aprendi a ver.
– Tens apenas vinte e cinco anos...
– Conheci um homem que tinha sessenta e ainda não tinha aprendido a conhecer-se a si mesmo."

"O vulto da igreja antiga: sempre uma sugestão de Deus, dentro e fora de nossos pensamentos... Por que não se revela Ele dum modo mais definido? Na forma dum milagre, por exemplo..."

"Ele sentia vontade de beijá-la. E por que não a beijava? Olívia podia repeli-lo, ficar magoada... Mas que importava. O mundo ia acabar, os homens se matavam, a vida era cruel. Um dia ambos estariam apodrecendo debaixo da terra."

"– Se Deus existe, então por que não se revelou?
– Porque até Deus precisa de oportunidades."

"– Só foge da solidão quem tem medo dos próprios pensamentos, das próprias lembranças.
– Talvez...
– Mas se tu soubesses como a solidão pode nos enriquecer..."

"O crânio do operário estava todo esfacelado, seu rosto absolutamente irreconhecível. (...)
– Mandem tocar de novo as máquinas – disse o gerente. – Não podemos ficar parados. Tempo é ouro.
Ouro... Por que era que os homens não se esqueciam nunca do ouro? Ouro lhe lembrava outra palavra: sangue. Tempo também era sangue. Ouro se fazia com sangue."

"– E agora?
Ele encolheu os ombros.
– É a pergunta que faço todos os dias a mim mesmo."

"Enfim ali estava uma criatura que se interessava por ele, que o amava de maneira profunda. Que tudo dava e nada pedia..."

"Estive pensando na fúria cega com que os homens se atiram à caça do dinheiro. É essa a causa principal dos dramas, das injustiças, da incompreensão da nossa época. Eles esquecem o que têm de mais humano e sacrificam o que a vida lhes oferece de melhor: as relações de criatura para criatura. De que serve construir arranha-céus se não há mais almas humanas para morar neles. (...) É indispensável trabalhar, pois um mundo de criaturas passivas seria também triste e sem beleza. Precisamos, entretanto, dar um sentido humano às nossas construções. E quando o amor ao dinheiro, ao sucesso nos estiver deixando cegos, saibamos fazer pausas para olhar os lírios do campo e as aves do céu.

“Nós somos homens, Filipe, e vivemos quase como máquinas. Essa ânsia de progredir, de acumular dinheiro, de construir, faz a gente esquecer o que tem de humano.”

“As perguntas das crianças em geral são as que nos deixam mais atrapalhados.”

“Eugênio ouviu os mexericos sem se perturbar. Limitou-se a sorrir e depois que ficou a sós não pôde deixar de se perguntar a si mesmo como lhe fora possível encarar os fatos duma maneira tão desligada, tão superior e serena? Se lhe tivessem contado aquelas infâmias em outro tempo, ele teria sentido dor física, teria ficado num estado de absoluta prostração, numa angústia que se prolongaria durante dias e dias. Os homens eram perversos – concluiu ele. Mas depois se corrigiu: – Havia homens muito perversos. Não bastariam as misérias reais da vida, aquelas de que ele tinha todos os dias dolorosas amostras na sua clínica? Algumas pessoas acham um prazer depravado em inventar misérias. Como podia uma criatura de alma limpa andar pelos caminhos da vida? Lembrou-se das palavras de Olívia numa de suas cartas. Tu uma vez comparaste a vida a um transatlântico, e te perguntaste a ti mesmo: ‘Estarei fazendo uma viagem agradável?’. Mas eu te asseguro que o mais decente seria perguntar: ‘Estarei sendo um bom companheiro de viagem?’ Realmente, os homens em geral eram maus companheiro de viagem. Apesar da imensidão e das incertezas do mar, apesar do perigo das tempestades, do raio e da fragilidade do navio, eles ainda se obstinavam em serem inimigos uns dos outros. O sensato seria que se unissem em uma atitude de defesa e que se trocassem gentilezas a fim de que a viagem fosse mais agradável para todos.”

“Pensemos apenas nisto: não fomos consultados para vir para este mundo e não seremos consultados quando tivermos de partir. Isso dá bem a medida da nossa importância material na terra, mas deve ser um elemento de consolo e não de desespero.”

“Mas atentando mais nas pessoas e nos fatos ele chegava à conclusão de que o que via, o que podia apalpar, cheirar e ouvir não era tudo. Havia algo de indefinível para além da matéria.”

“Ele sabia que nunca havia de chegar à Verdade. Quando muito conseguiria vislumbrar pequenas verdades.”

“Os homens viviam demasiadamente preocupados com palavras, pulavam ao redor delas e se esqueciam dos fatos. E os fatos continuavam a bater-lhes na cara.”

“O espírito de gentileza podia salvar o mundo. O que nos falta é isso: espírito de gentileza. Boas maneiras de homem para homem, de povo para povo.”

“Se naquele instante – refletiu Eugênio – caísse na Terra um habitante de Marte, havia de ficar embasbacado ao verificar que num dia tão maravilhosamente belo e macio, de sol tão dourado, os homens em sua maioria estavam metidos em escritórios, oficinas, fábricas... e se perguntasse a qualquer um deles: ‘Homem, porque trabalhas com tanta fúria durante todas as horas de sol?’ – ouviria esta resposta singular: ‘Para ganhar a vida.’ E no entanto a vida ali estava a se oferecer toda, numa gratuidade milagrosa. Os homens viviam tão ofuscados por desejos ambiciosos que nem sequer davam por ela. Nem com todas as conquistas da inteligência tinham descoberto um meio de trabalhar menos e viver mais. Agitavam-se na terra e não se conheciam uns aos outros, não se amavam como deviam. A competição os transformava em inimigos.”