19 de agosto de 2016

9 anos de fragmentos.

O fio das missangas - Mia Couto

"Falar é fácil. Custa é aprender a calar."

"O pai faz abrir a mala do automóvel e de lá espreitam embrulhos e celofanes. São mais os enfeites que os conteúdos, mas não é assim mesmo a festa: feita de ilusão e brilhos maiores que as substâncias?"

"Não sou velho, é verdade. Mas fui ganhando muitas velhices."

"O que eu invejo, doutor, é quando o jogador cai no chão e se enrola e rebola a exibir bem alto as suas queixas. A dor dele faz parar o mundo. Um mundo cheio de dores verdadeiras pára perante a dor falsa de um futebolista. As minhas mágoas que são tantas e tão verdadeiras e nenhum árbitro manda parar a vida para me atender, reboladinho que eu estou por dentro, rasteirado que fui pelos outros. Se a vida fosse um relvado, quantos penalties eu já tinha marcado contra o destino?"

"Uns aprendem a andar. Outros aprendem a cair."

"A realidade não é um sonho fabricado pelos mais ricos?"

"E a lágrima nos lembra: nós, mais que tudo, não somos água?"

Cada homem é uma raça - Mia Couto

"História de um homem é sempre mal contada. Porque a pessoa é, tem todo o tempo, ainda nascente. Ninguém segue uma única vida, todos se multiplicam em diversos e transmutáveis homens."

"Fixei o céu, procurando Deus. Mas eu não tinha vistas para tão longe."

"A morte se tornara tão frequente que só a vida fazia espanto."

"É preciso que compreendam: nós não temos competência para arrumarmos os mortos no lugar do eterno. Os nossos defuntos desconhecem a sua condição definitiva: desobedientes, invadem-nos o quotidiano, imiscuem-se do território onde a vida deveria ditar sua exclusiva lei."

"Tenho duas pernas: uma de santo, outra de diabo. Como posso seguir um só caminho?"

"Acordar não é a simples passagem do sono para a vigília. É mais, um lentíssimo envelhecimento, cada despertar somando o cansaço da inteira humanidade."

"Os vindouros, esses que aguardam por corpo, são quem mais deveríamos temer. Porque deles sabemos o quase nada. Dos mortos ainda vamos recebendo recados, afeiçoamo-nos a suas familiares sombras."

"Só um mundo novo nós queremos: o que tenha tudo de novo e nada de mundo."

Fragmentos trazidos pelo vento

"É uma coisa estranha, esse negócio de sermos humanos; por que não abraçarmos nossa estranheza, em vez de tentar domá-la? Este é o caminho do excêntrico: viver profundamente sua irredutível natureza pessoal." (Revista Vida Simples – Fevereiro, 2016).

"O pensador de manada é a grande praga de nossos dias: por todos os lados, miasmas contraditórios tentam uniformizar a voz, a natureza, a alma do indivíduo. Pensa-se em bloco, gosta-se em bloco, odeia-se em bloco. O espírito do tempo parece nos exigir adesão a este ou àquele grupo, a esta ou àquela cartilha, a este ou àquele ponto final na eterna e necessária algaravia humana." (Revista Vida Simples – Fevereiro, 2016).

"O mundo não pode avançar enquanto o impulso da individualidade se atrofia. Precisamos de nossa estranheza essencial. (...) Precisamos de pessoas que se atrevam a viver por seus códigos pessoais; pessoas que, sem esquecer o bem da humanidade, ousem pensar – irredutivelmente – com sua própria cabeça."(Revista Vida Simples – Fevereiro, 2016).

Claraboia - José Saramago

"Ouvia lá dentro um ruído de vozes: a mãe e a tia falavam. Muito falavam aquelas mulheres. Que tinham elas a dizer todo santo dia, que já não estivesse já dito mil vezes?"

"A paisagem era sempre igual, mas só a achava monótona no dias de verão teimosamente azuis e luminosos em que tudo é evidente e definitivo. Uma manhã de nevoeiro como esta, de nevoeiro delgado que não impedia de todo a visão, cobria a cidade de imprecisões e de sonho."

"– Não pode ser. O mal e o bem, o bom e o mau, andam sempre misturados. Nunca se é completamente bom ou completamente mau. Acho eu – acrescentou, timidamente.
Amélia virou-se para a irmã, empunhando a colher com que provava a sopa:
– Essa não está má. nesse caso, não tens a certeza de que é bom aquilo de que gostas?
– Não, não tenho.
– Então, por que gostas?
– Gosto porque acho que é bom, mas não sei se é bom."

“– Diz-me lá, se sabes, o que é o bem e o mal. Onde acaba um e começa o outro?
– Isso não sei, nem é pergunta que se faça. O que sei é reconhecer o mal e o bem onde quer que estejam...
– De acordo com o que pensas a respeito deles...
– Nem podia ser de outra maneira. Não é com as ideias dos outros que eu ajuízo!
– Pois é aí que está o ponto difícil. Esqueces que os outros também têm as suas ideias acerca do bem e do mal. E que podem ser mais justas que as tuas...
– Se toda a gente pensasse como tu, ninguém se entendia. É preciso regras, é preciso leis!
– E quem as fez? E quando? E com que fim?
Calou-se durante um breve segundo, e perguntou com um sorriso de malícia inocente:
– E, afinal, pensas com as tuas ideias ou com as regras e as leis que não fizeste?”

"A preocupação era demasiada para ceder ao jogo dos músculos que comandam o sorriso."

"Vivia dentro de si mesma, como se estivesse sonhando um sonho sem princípio nem fim, um sonho sem assunto de que não queria acordar, um sonho todo feito de nuvens que passavam silenciosas encobrindo um céu de que já se esquecera."

“Quando fores crescido, hás de querer ser feliz. Por enquanto não pensas nisso e é por isso mesmo que o és. Quando pensares, quando quiseres ser feliz, deixarás de sê-lo. (...) A felicidade não é coisa que se conquiste. Hão de dizer-te que sim. Não acredites. A felicidade é ou não é.”

“Mas a compreensão é uma palavra. Ninguém pode compreender outrem, se não for esse outrem. E ninguém pode ser, ao mesmo tempo, outrem de si mesmo.”

“A experiência, não sendo aplicada, é como o outro imobilizado: não produz, não rende, é inútil. E de nada vale a um homem acumular experiência como se colecionasse selos.”

“Quem tiver sede de humanidade não a irá matar nos versos de Fernando Pessoa: será como se bebesse água salgada.”

“A verdade, às vezes, parece indecência. Tudo está bem enquanto não se começam a dizer indecências, enquanto não se começam a dizer verdades!”

“A sua única compensação estava no amor, não no amor obrigatório do parentesco, tantas vezes um fardo imposto pelas convenções, mas o amor espontâneo que de si mesmo se alimenta."

O Estrangeiro - Albert Camus

"Disse-me, antes de mais nada, que me pintavam como tendo um caráter taciturno e fechado e quis saber o que eu pensava a esse respeito.
– É que nunca tenho grande coisa a dizer. Então fico calado – respondi."

"Mas ele me interrompeu e exortou-me uma última vez, do alto de sua posição, perguntando-me se acreditava em Deus. Respondi que não. Sentou-se, indignado. Disse-me que era impossível, que todos os homens acreditavam em Deus, mesmo os que lhe viravam o rosto. Essa era a sua convicção, e se algum dia viesse a duvidar dela, a sua vida deixaria de ter sentido. 
– O senhor quer – exclamou – que a minha vida não tenha sentido?
Na minha opinião, eu não tinha nada com isso, e foi o que lhe disse."

"Nunca gostei de ser surpreendido. Quando me acontece alguma coisa, prefiro estar presente."

"A partir desse momento, a lembrança de Marie me passaria a ser indiferente. Morta, deixaria de me interessar. Achava isso normal, assim como compreendia muito bem que as pessoas me esquecessem depois da minha morte. Já não tinham nada a fazer comigo. Nem sequer podia dizer que me era penoso pensar nisso."

Últimos poemas (O mar e os sinos) - Pablo Neruda

"Hoje quantas horas vão caindo
no poço, na rede, no tempo,
são lentas mas não tiveram descanso,
seguem caindo, unindo-se
primeiro como peixes,
depois como pedradas ou garrafas.
Lá embaixo entendem-se
as horas com os dias,
com os meses,
com lembranças confusas,
noites desabitadas,
roupas, mulheres, trens e províncias,
o tempo se acumula
e cada hora
se dissolve em silêncio,
se esfarela e cai
ao ácido de todos os vestígios,
à água negra
do avesso da noite."

"Volta-se a mim como uma casa velha
com pregos e ranhuras, e assim
que alguém cansado de si mesmo,
como de um traje cheio de buracos,
tenta andar despido porque chove,
quer o homem molhar-se na água pura,
no vento elementar, e não consegue
senão voltar ao poço de si mesmo,
À minúscula preocupação de se existiu,
de se soube expressar-se
ou pagar ou dever ou descobrir,
como se fosse tão importante
que a terra com seu nome vegetal
tenha que aceitar-me ou não aceitar-me
no seu teatro de paredes negras."

"Se cada dia cai
dentro de cada noite,
há um poço
onde a claridade está presa.

Há que sentar-se na beira
do poço da sombra
e pescar a luz caída
com paciência."

"Perdão se pelos meus olhos não chegou
mais claridade que a espuma marinha,
perdão porque meu espaço
se estende sem amparo
e não termina:
monótono é meu canto,
minha palavra é um pássaro sombrio,
fauna de pedra e mar, o desconsolo
de um planeta invernal, incorruptível.
Perdão por esta sucessão de água,
da rocha, da espuma, o delírio da maré
assim é minha solidão
saltos bruscos de sal contra os muros
de meu ser secreto, de tal maneira
que eu sou uma parte do inverno,
da mesma extensão que se repete
de sino em sino em tantas ondas
e de um silêncio como cabeleira,
silêncio de alga, canto submergido."

"Foi sangrenta toda a terra do homem.
Tempo, edificações, rotas, chuva,
apagam as constelações do crime,
o certo é que um planeta tão pequeno
foi mil vezes coberto pelo sangue,
guerra ou vingança, armadilha ou batalha,
caíram homens, foram devorados,
depois o esquecimento foi limpando
cada metro quadrado: alguma vez
um vago monumento mentiroso,
às vezes uma cláusula de bronze,
depois conversações, nascimentos,
municipalidades, e o esquecimento.
Que artes temos para o extermínio
e que ciência para extirpar lembranças!
Está florido o que foi sangrento.
Preparar-se, rapazes,
para outra vez matar, morrer de novo,
e cobrir com flores o sangue."

Fragmento trazido pelo vento

“Dizem que o que todos procuramos é um sentido para a vida. Não penso eu seja assim. Penso que o que estamos procurando é uma experiência de estar vivos, de modo que nossas experiências de vida, no plano puramente físico, tenham ressonância no interior do nosso ser e da nossa realidade mais íntimos, de modo que realmente sintamos o enlevo de estar vivos.” (O Poder do Mito - Joseph Campbell)